valsa de um só

e eu falei que não queria
que era só uma distração
jurei
que não precisava
de nada disso
que queria me dar
escolhi ficar no chão
me assustou seu bem-querer
me sufocou a sua mão
deixei passar o tempo
meses sem resposta
sem dó
morria de medo, mas não admitia
de ter um pouco da minha felicidade

nas suas mãos

//

Brilha, ao ponto de cegar
Faz arder, queimar
Abre as feridas mal cicatrizadas
Costura a alma desmantelada

Sincroniza a vida mais uma vez
Volta a dançar, aperta o play
Deixa as luzes te apagarem
Permita que o passado se desfaça

É um novo ciclo que começa
Outra escolha à espera
Sozinha ou acompanhada
Com ou se, ele, o agora é seu

Só seu para transformar
Multiplicar
Melhorar
Curar

abraço

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quando você se sentir sozinho, feche os olhos
deixa que o mundo te envolva e que o vazio se aproxime
estenda a mão, toque-o na região entre os olhos e sobre o nariz
a solidão não precisa ter uma aparência amedrontadora
talvez sua face seja gentil como a de um amigo de infância
com olhos que transbordam a inocência do primeiro amor
as flores da infância, aquelas que você deixou para trás no início da juventude
elas definharam por falta de cuidado
enquanto isso você corria, tinha pressa
tentava acelerar com as próprias mãos a rotação da Terra
para conhecer o ser adulto
para finalmente saber “o que ia ser quando crescer”
até que o tão esperado dia chega
crescer acabou por ser o sonho tornado em realidade
mas a realidade tem cantos escuros, sombras espreitando em cada esquina
ruas esburacadas e olhos por toda parte
com as asas da liberdade vem o risco de cair
mas você garantiu: estava pronto para tentar
queria pagar o preço, julgava ser forte o suficiente
ninguém sabe o que é dor até o momento da queda
a sensação de que as paredes se fecham à sua volta
e de que o mundo resolveu descarregar o próprio peso em você
quero saber de uma coisa: você já cansou da luta?
porque li em algum lugar que às vezes melhor do que se debater, é parar
ficar quieto e pensar com calma apesar da vontade de fugir
se você ainda tem alguma força, aceita os braços que timidamente te convidam
acolhe o silêncio e recebe o que ele tem pra te ensinar
porque junto com a solidão, o vazio e a ausência
ele pode te fazer mais completo
ai de você pequena criatura, por que insiste em espernear?
aceita os ensinamentos que eles te propõe
e a biblioteca de autoconhecimento que têm para dar
quem sabe no meio de um dos capítulos
você não encontra um pequeno embrulho?
e quem sabe dentro dele você não acha sementes
de flores conhecidas e outras diferentes
que vão te ajudar a plantar um novo jardim
perfumar os novos ares, colorir a nova rota 
e te mostrar que a aventura de se viver não chegou ao fim

Vive

Eu achava que quando conseguisse certas coisas na vida, seria mais feliz. Não que eu não fosse, mas acontece que quando eu pensava numa “dream life”, as realizações pessoais sempre faziam parte do pacote. Não mesmo. Hoje eu vejo que esse estilo de vida tão almejado em que você faz o que te preenche, está mais ligado com a forma como encaramos a vida do que com as conquistas em si.

As vitórias na vida podem muito bem vir a moldar e dar forma ao nosso tão sonhado “futuro eu”: uma carreira bem sucedida e estável, com aquele emprego dos sonhos (que seja a sua definição de sucesso, não a dos outros), uma família feliz, cheio de saúde, com relacionamentos saudáveis e construtivos, viajado, cheio de amigos, com um network de dar inveja, fluente em oito línguas e ainda por cima com tempo para fazer aquele hobby que só você vê sentido (fala que pelo menos alguma dessas coisas já foi/é uma meta, por favor), mas não é tudo. A sensação de euforia, prazer (às vezes, alívio) e o gostinho da vitória passam e tudo o que resta é lembrança. E depois disso, como lidar com aquela sensação de ressaca de quando certos acontecimentos já não trazem a mesma alegria de antes?

“É hora de correr atrás de uma nova conquista, um novo sonho.” É isso mesmo?

Sonhos são importantes, evitam que fiquemos parados ou pior, andemos para trás. Mas eu venho me perguntando: se eu tivesse tudo o que idealizo, eu seria mais feliz?

Se você tivesse cada uma das coisas da sua lista de sonhos e desejos, você seria mais feliz?

A solução é ficar correndo sempre atrás de algo novo e nunca olhar para trás? Qual o problema de olhar para trás, eu passei a me perguntar. Ninguém deveria ficar dando passos para trás, se escondendo atrás do passado, mas quem nunca precisou dar uma visita no seu antigo eu para se (re)descobrir? A vida é dura sim, cruel às vezes. Cada passo dado é a certeza da existência de mil outros ainda a serem caminhados, uns mais acidentados do que os outros.

Por que você não dá uma desacelerada e aproveita a vista do agora? Ela não volta mais. Deixa a ansiedade pelo futuro um pouco de lado, sente os sons, cheiros, sabores, a temperatura e as texturas do que se passa à sua volta. Esteja de corpo, alma e espírito naquilo que você tem agora ao invés de passar andando sem dar atenção porque “o próximo será muito melhor”. Vive o agora, mais leve.