Terra, céu e mar

Ah, eu sonhava que poderia ser livre
De futuros erros, arrependimentos

Escapar de cada escolha errada
Voar longe do sol quente

Olhar pra trás e admirar bem de longe
Cada penhasco e tropeço evitado

Caminho plano, trajeto fácil (sempre em frente)
Nunca para cima nem para baixo

Fitei os pássaros e feriu admitir
Quando me segurava, errava também

Aquele cuja forma de existência é defeito
Desfeito, malfeito, indivíduo imperfeito

Não tem a chance de ver o rosto dos anjos
Sem simetria em sua carne e cerne

Com a certeza da finitude do que pregam infinito
Abandono, devagar, a hesitação que me define

Não posso mais planar somente de noite
Recolher-me a cada fim de madrugada

Se a cera de minhas asas derreterem
Espero que o oceano me aceite

Enquanto estiver em queda livre
Meu tempo correndo mais rápido que o vento

Quero me afogar em tranquilidade
Não tentarei me agarrar à superfície

Envolverei meu corpo em ondas
Repousarei minha cabeça em sua espuma

Passarei o resto de meus dias
Finalmente, flutuando num céu de mar

Play pretend (him)

Cold sunrise
Once upon a time
The boy goes into the forest
Loses track of time that passes by

Midday is here
Sun burning his scalp
Rabbits and birds stole his lunch
But he’s too hungry to cry

Dusk arrived
His friends just disappeared
It’s a little hard to admit
Being alone brings him relief

Midnight came
These eyes that shine so bright
They follow him, afraid of him
The creatures of the dark

Morning rose
The wolves went into hide
He goes back to his people
The true monsters live there inside

História

Minha pele amarela (ou não)

Meus olhos puxados (ou não)

Quando vocês vão conseguir parar

De me olhar só pela cor?

 

Boneca descartável

“Brinca comigo

Se diverte comigo

Eu, a mansa e calada

Aceito tudo de cabeça baixa”

 

Grita da escada rolante

Entrando na estação Luz

Uma bosta qualquer

Te garanto que não era chinês

 

Eu andando na rua

Me pede para te seguir até em casa

Promete que não vai fazer

“Nada que eu não quiser”

 

Boneca de porcelana

Meio frágil

Ainda descartável

 

“Brinca comigo

Se diverte comigo

Ela, a mansa e calada

Vai aceitar tudo de cabeça baixa”

 

Afinal de contas

Existem alguns bilhões iguais a mim

“Um a menos? Que bom!

Já que temos tantos por aqui”

 

Minhas raízes vêm do oriente

Tenho orgulho dessa cultura

Inabalável

Milenar

 

Perfeita?

Nunca

Inocente?

Até um tolo saberia que não

 

Ainda assim

Minha história

Meu passado

Minhas vestimentas

E ideogramas

Minha arte

Meu alicerce

Minha língua

Meus antepassados

Nossa família

E enquanto terceiros insistirem

Nossa cor

passagem

ela que vê glória em trem lotado
cor em dia cinza
estende os braços
abraça o mundo
e quando perguntam
como sorri em meio ao feio e o sujo
só diz saber ser breve
sua estadia na plataforma
que acha bonito
como a onda quebra
as folhas caem
acaba o dia
que não entende
quem coloca na mesma frase
viver e agonia
“não brinco nos trilhos
porque o trem pode demorar
mas sempre chega
e quando vier me buscar
como é que fica?”