História

Minha pele amarela (ou não)

Meus olhos puxados (ou não)

Quando vocês vão conseguir parar

De me olhar só pela cor?

 

Boneca descartável

“Brinca comigo

Se diverte comigo

Eu, a mansa e calada

Aceito tudo de cabeça baixa”

 

Grita da escada rolante

Entrando na estação Luz

Uma bosta qualquer

Te garanto que não era chinês

 

Eu andando na rua

Me pede para te seguir até em casa

Promete que não vai fazer

“Nada que eu não quiser”

 

Boneca de porcelana

Meio frágil

Ainda descartável

 

“Brinca comigo

Se diverte comigo

Ela, a mansa e calada

Vai aceitar tudo de cabeça baixa”

 

Afinal de contas

Existem alguns bilhões iguais a mim

“Um a menos? Que bom!

Já que temos tantos por aqui”

 

Minhas raízes vêm do oriente

Tenho orgulho dessa cultura

Inabalável

Milenar

 

Perfeita?

Nunca

Inocente?

Até um tolo saberia que não

 

Ainda assim

Minha história

Meu passado

Minhas vestimentas

E ideogramas

Minha arte

Meu alicerce

Minha língua

Meus antepassados

Nossa família

E enquanto terceiros insistirem

Nossa cor

passagem

ela que vê glória em trem lotado
cor em dia cinza
estende os braços
abraça o mundo
e quando perguntam
como sorri em meio ao feio e o sujo
só diz saber ser breve
sua estadia na plataforma
que acha bonito
como a onda quebra
as folhas caem
acaba o dia
que não entende
quem coloca na mesma frase
viver e agonia
“não brinco nos trilhos
porque o trem pode demorar
mas sempre chega
e quando vier me buscar
como é que fica?”

feliz natal (I)

não nego
que é a minha certeza
construída na tristeza
de quem espera
o que ainda não voltou
mas que já foi
no meu tempo
na minha época
tão especial
junto em cada
pequeno momento
das mãos em concha
aguardando a bênção
que hoje paira sobre mim
em cor de sombra
gosto frio
de quem perdeu o trem
saiu da linha
sem plano de retornar
mas de peito estirado
ainda espera
teu regresso
tua volta
desculpa minha
pra acordar
não interromper
meu respirar
tu é minha paz
e tormento
tempestade brava
que não indica fim
mas promete
um céu aberto
ouro no limbo sem teto
diz que vai me mostrar cores
que eu nunca vi
só que o andar sob águas
não me tira o medo
pavor da existência
fobia minha de eternidade
e você, tão solene
em se dizer durar para sempre
agradeço
mas hoje peço
por favor
de permanente
só o esquecimento

Pendura

nas costas fez peso
mas foi lá dentro
o estrago feito
no peito
aperto
da espera
pela próxima
onda onde andou
certo príncipe do mar
de quem cada memória
perdura nos ossos
enchia os olhos
caminho certo
caminho reto
tão preciso
mas hoje
não me
salva
daquele
que rouba
o revigorar
de cada manhã
meu pleno acordar
renascer de cada dia
na esperança do santo
que prometeu aqui voltar
mas é o regresso do incerto
que destrói toda esperança
feita pela ainda criança
que um dia acreditou
na preciosa espera
boa graça de vida
certa de chamar
dádiva divina
escolha dele
do ainda feto
em abrir os olhos
decisão só dele para
estar aqui, no presente
negação em ser ausente
abraçar o melhor e o pior
de todo um universo
sair de seu mundo
ecossistema puro
para num lugar
se despertar